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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Descobriu-se abandonado. Como milhões. Ele e os irmãos, que nem conhecia. Cada um foi para um lado, depois de atravessarem a porta da maternidade. Meio século antes. Quem foram eles? Quem são eles? Descobriu porque carregava as facas no peito e na garganta. Descobriu porque não via brilho, não via vida. Descobriu porque o mundo da alucinação conduzida foi a saída e entrada. Para outro inferno. Tanto fazia a riqueza e a miséria. Tanto fazia o beijo na boca ou a cusparada na cara. O carinho o ou murro. O afago ou a tortura. Morrer ou matar. Um templo e uma fossa aberta. Uma paisagem de cartão postal ou o lixão fétido da periferia. Amor. A palavra lhe era ofensiva, pois não conhecia o sentimento. Seres humanos eram feitos de plástico. Se via o sangue jorrando, pensava em um novo suco. Os gritos da dor lhe soavam como sinfonia. Cinquenta anos. Sobrevivente. Do abandono. Não tinha coragem para o ato final. E isso o machucava mais. Achava que penava tanto porque tinha companhia. Eram os outros. Milhões. Os abandonados das mais diferentes formas. Até os que viveram com eles. Sob o mesmo teto. Comeram à mesma mesa. Mas nunca foram olhados. Nunca um colo. Nunca um carinho. Nunca.

por Zé da Silva, do blog do Zé Beto.

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